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  • Lopes & Castelo, Opinião

O Brasil está parando e muitos ainda não perceberam

  • maio 25, 2026
  • 3:03 pm

Existe uma frase que ouço com frequência crescente nos corredores de empresas, em reuniões de sócios e em conversas reservadas com gestores e empreendedores de diferentes setores.

Vamos esperar o cenário melhorar para tomar essa decisão.

Essa frase, aparentemente razoável, é uma das mais perigosas que um empresário pode proferir em 2026, não porque o cenário não está apenas ruim, mas pelo fato de estar parando.

E enquanto muitos esperam, o relógio e a conta bancária continuam rodando.

Resolvi escrever este artigo não para trazer conforto, mas para provocar consciência, isto porque, o primeiro passo para atravessar uma tempestade é, antes de qualquer coisa, reconhecer que ela existe.

A tempestade que se instalou no Brasil

Durante anos, empresários brasileiros aprenderam a conviver com a instabilidade como se ela fosse uma condição permanente do ambiente de negócios, algo que se tolera, se contorna e, eventualmente, se supera. Essa resiliência, que é uma das marcas mais notáveis do empreendedor brasileiro, acabou também gerando um efeito colateral perigoso, que foi a normalização do excepcional.

O que estamos vivendo hoje não é mais o ciclo habitual de altos e baixos. O que está em curso é uma convergência de fatores estruturais, conjunturais e políticos que, juntos, formam aquilo que os especialistas já chamam abertamente de “a tempestade perfeita”.

E os números confirmam o que a intuição já sinalizava.

No encerramento de 2025, o Brasil atingiu a marca de 5.680 empresas em recuperação judicial, representando um salto de 24,3% em relação ao ano anterior, com um passivo combinado de R$ 40 bilhões. Apenas no último trimestre do ano, 510 novas organizações buscaram proteção judicial. O dado que mais perturba, no entanto, não é esse volume, mas os fatores que estão por trás disso.

Muitas dessas empresas tinham demanda e faturamento. Elas não quebraram por falta de mercado. Elas sucumbiram à asfixia financeira, ao custo impagável do dinheiro, ao crédito que não chegou e a estrutura que não se sustentou. Não quebraram por incompetência. Quebraram por improviso.

Os pilares que sustentavam o mercado estão cedendo

Para entender o que está acontecendo com o tecido empresarial brasileiro, é preciso olhar para os cinco pilares que, simultaneamente, estão cedendo.

1. O Custo do Dinheiro Tornou-se Proibitivo

A taxa Selic, que serve de referência para toda a cadeia de crédito do país, atingiu 15% ao ano, mantendo o Brasil entre as nações com os maiores juros reais do mundo. O efeito prático disso não é apenas o encarecimento dos empréstimos. É a paralisia generalizada de decisões e investimento.

De acordo com pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 62% das indústrias brasileiras planejam usar apenas capital próprio para investir em 2026, pois o custo dos recursos externos e as exigências excessivas de garantias tornaram o crédito inacessível na prática. Isso não é uma estratégia de gestão conservadora. É uma adaptação forçada à realidade de um mercado financeiro que literalmente fechou a torneira.

E quando uma empresa decide investir apenas com recursos próprios em um ambiente de margens comprimidas, o que acontece? Os projetos de expansão ficam engavetados, as contratações são suspensas, a modernização é adiada e o crescimento pausado.

2. A Confiança Empresarial Está em Colapso

O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), que separa o otimismo do pessimismo na linha dos 50 pontos, opera abaixo desse patamar há mais de 14 meses consecutivos, já sendo opior desempenho em uma década. Em março de 2026, a confiança empresarial geral recuou pela segunda vez consecutiva, puxada pela manutenção dos juros altos, pela incerteza eleitoral e pelos desdobramentos da geopolítica global.

O dado mais revelador, divulgado pela CNI, é que 23 dos 29 setores industriais apontaram pessimismo em um único mês, o maior número desde o início de 2025, com empresários projetando redução no quadro de funcionários e congelamento no lançamento de novos empreendimentos.

Quando o pessimismo é setorial, existe uma crise de segmento. Quando ele é generalizado e persistente como este, existe uma crise de sistema.

3. Expansões Paralisadas, Investimentos Engavetados

Aqui reside um dos aspectos mais preocupantes e menos discutidos do cenário atual. O Brasil corporativo está parado não apenas por falta de condições, mas por falta de visibilidade.

Empresários não tomam decisões de expansão sem previsibilidade. E hoje, a previsibilidade no Brasil é uma commodity rara. A combinação de juros elevados, ano eleitoral, reforma tributária em transição e tensões no comércio internacional criou um ambiente em que o racional mais óbvio é esperar.

Mas esperar tem um preço. Contratos não renovados. Fornecedores perdidos. Janelas de mercado fechadas. Talentos migrando para concorrentes que ousaram avançar. O empresário que opta por paralisar para se “proteger” frequentemente descobre, meses depois, que se protegeu do crescimento, mas não se protegeu dos custos fixos, que continuaram correndo enquanto ele esperava.

A produção industrial fechou 2025 com crescimento de apenas 0,6%, um número modesto se comparado à expansão de 3,1% registrada em 2024. A desaceleração ganhou força justamente no segundo semestre, acompanhando o aperto monetário. As importações de bens de consumo saltaram 15,6% no mesmo período, preenchendo as lacunas que a indústria nacional deixou ao reduzir o ritmo. A combinação é perversa, pois produzimos menos, importamos mais e perdemos competitividade no momento em que mais precisávamos avançar.

4. O Crédito Que Deveria Existir Simplesmente Não Chega

A escassez de crédito no Brasil em 2026 não é uma percepção subjetiva de empresários avessos ao risco, é um fato estrutural. Os bancos, em ano de eleição presidencial, adotam postura conservadora, elevam as exigências de garantias e encurtam os prazos. A incerteza sobre os rumos da política econômica pós-eleição inibe o apetite por operações de longo prazo.

O resultado é que a empresa que chega às portas do sistema financeiro precisando de capital para reorganizar seu passivo, modernizar operações ou atravessar um período de retração de receita frequentemente ouve como resposta um sonoro não, ou então ouve um sim que custa caro demais para ser sustentável.

E há algo ainda mais grave, muitas empresas chegam tarde demais. Quando finalmente decidem buscar a recuperação judicial ou renegociar estruturas, já não têm caixa nem ativos livres para oferecer como garantia. Sem conseguir dinheiro novo para se reerguer, o plano de recuperação fracassa e o que resta é a falência o encerramento definitivo da atividade que levou anos para ser construída.

5. A Reforma Tributária Chegou Com Sua Conta

A Reforma Tributária, tema celebrado por décadas como a salvação da complexidade fiscal brasileira, chegou, e com ela vieram os custos de transição que poucos planejaram adequadamente. A adaptação dos sistemas, o retreinamento das equipes, a revisão dos contratos com fornecedores e clientes, a adequação dos processos operacionais, tudo isso tem custo. E esse custo chega exatamente no momento em que o caixa das empresas está mais comprimido.

Decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça permitindo que a Fazenda Pública peça falência por débitos tributários, somadas às restrições no uso de prejuízo fiscal, retiraram o oxigênio de reestruturação que muitas empresas utilizavam para ganhar fôlego.

O Estado, que deveria ser parceiro do desenvolvimento, torna-se mais um credor em fila, não um credor comum, mas um credor com poderes excepcionais de cobrança.

O Que Está Acontecendo no Chão das Empresas

Aquém dos indicadores macroeconômicos, o que se observa no cotidiano das empresas brasileiras em 2026 é um conjunto de comportamentos que traduzem a crise de forma muito concreta.

Contratos não são renovados porque o cliente não tem certeza do que virá nos próximos meses e prefere deixar a relação comercial em aberto, sem compromisso.

Parcerias estratégicas são pausadas porque nenhuma das partes quer assumir obrigações em um ambiente de instabilidade que pode inviabilizar o cumprimento futuro.

Equipes são enxutas não apenas por corte de custos, mas porque o volume de trabalho simplesmente caiu a demanda que sustentaria aquele nível de estrutura simplesmente não chegou.

Sócios se desentenderam porque a crise revela divergências que o crescimento mascarava, sobre apetite a risco, sobre o ritmo de investimentos, sobre a distribuição de resultados que já não existem no nível de antes.

Fornecedores param de entregar porque acumularam inadimplência e não conseguem mais financiar seus próprios estoques.

Empreendedores adiam decisões que não podem ser adiadas, como a revisão do modelo societário, a proteção patrimonial, a regularização fiscal, a reestruturação operacional, e cada mês de adiamento é um mês em que a exposição cresce silenciosamente.

Esse é o retrato que nenhum indicador oficial captura com precisão. O peso do improviso acumulado, das decisões postergadas, das estruturas que funcionavam quando o mercado estava em expansão e que agora revelam suas fragilidades quando mais precisariam de solidez.

É muito importante citarmos essas questões, pois existe um tipo de crise que acontece em erupção, rápida, barulhenta, impossível de ignorar. E existe outro tipo, talvez o mais perigoso, que acontece em erosão lenta, silenciosa, progressiva, quase imperceptível até o momento em que já não há mais como reverter.

O Brasil de 2026 está vivendo essa segunda modalidade. E o risco do silêncio, o risco de não nomear o que está acontecendo, de não agir enquanto ainda há tempo, de esperar por melhores condições que podem não chegar no horizonte planejado é devastador.

O empresário que hoje está com caixa apertado, mas ainda positivo tem uma janela de ação que o empresário sem caixa não tem mais. O empresário que hoje enxerga os primeiros sinais de fragilidade na estrutura societária pode agir de forma preventiva, reorganizando, protegendo e renegociando antes que o problema se torne irreversível.

A diferença entre a empresa que atravessa a crise e a que sucumbe a ela raramente está no tamanho, no setor ou na sorte, mas na velocidade com que o empresário reconhece o problema e age sobre ele.

O Que os Dados Dizem Sobre o Futuro Próximo

As perspectivas para 2026 não são animadoras. A projeção de crescimento do PIB brasileiro para este ano é de 1,8%, insuficiente para desalavancar empresas que se estruturaram esperando expansão. A confiança empresarial segue em território pessimista após 14 meses consecutivos abaixo da linha de neutralidade. O índice de falências e recuperações judiciais continua em trajetória ascendente pelo quinto ano consecutivo.

No varejo e nos serviços, o impacto é duplo, além da Selic elevada, o endividamento das famílias limita a renda disponível e comprime a demanda real. A indústria, por sua vez, convive com estoques acima do planejado, queda na produção e concorrência crescente das importações que chegam mais baratas graças ao câmbio e à retração do consumo local.

E o fator eleitoral, que historicamente traz volatilidade e incerteza jurídica ao país, adiciona mais uma camada de imprevisibilidade para decisões de médio e longo prazo. Investidores privados preferem aguardar o resultado das urnas antes de comprometer capital em projetos que dependem de estabilidade regulatória. O efeito prático disso está em mais projetos engavetados, mais contratações suspensas, mais expansões adiadas.

O setor de infraestrutura é, talvez, a única exceção, isto porque o setor é impulsionado por contratos de concessão já assinados e pelo ciclo eleitoral que acelera obras públicas. Mas essa exceção não é suficiente para compensar o pessimismo generalizado que domina o comércio, a indústria de transformação e o setor de serviços.

Mas há uma pergunta que todo empresário deveria se fazer agora, não amanhã, não depois que o cenário melhorar, mas agora.

A estrutura da minha empresa foi construída para resistir a esse momento, ou apenas para crescer quando o vento estava a favor?

Essa é uma pergunta sobre governança, sobre planejamento, sobre a solidez do modelo societário, sobre a eficiência da estrutura fiscal, sobre a exposição patrimonial dos sócios, sobre os contratos que sustentam as relações comerciais e sobre os mecanismos de proteção que existem, ou que pelo menos deveriam existir para momentos exatamente como este.

Uma empresa que tem resposta clara para essa pergunta pode atravessar a crise com danos controlados. Uma empresa que não tem resposta, corre o risco de descobrir suas fragilidades no pior momento possível, quando já não há tempo nem recursos para corrigi-las.

O Improviso Tem Um Preço

Ao longo de quase duas décadas assessorando empresas em momentos de crise, reestruturação e transformação, aprendi que o maior inimigo do empresário brasileiro não é o governo, não são os juros e não é a concorrência. É o improviso, a gestão reativa, a tomada de decisão por urgência em vez de estratégia, a estrutura montada para o melhor cenário e nunca revisada para o pior.

O Brasil de 2026 não está esperando ninguém, o mercado está fazendo sua seleção e ela não é natural. ela é estrutural. As empresas que sobreviverão a este período não serão necessariamente as maiores ou as mais antigas. Serão as mais organizadas, as que reconheceram o problema cedo o suficiente, as que buscaram apoio antes de perder a capacidade de agir, as que transformaram a crise em diagnóstico e o diagnóstico em ação.

Este é o momento de fazer perguntas difíceis. De olhar para dentro da empresa com honestidade brutal. De revisar estruturas, contratos, passivos, exposições e planos. De buscar os parceiros jurídicos, financeiros e estratégicos, que podem ajudar a tomar decisões com a lucidez que a urgência frequentemente sequestra.

O cenário está desafiador e as perspectivas não são as melhores. E isso não é pessimismo, é realismo que, quando encarado com coragem e estratégia, cria oportunidades extraordinárias de construir bases mais sólidas do que nunca.

Mas para isso, é preciso agir agora.

Por Luis Castelo
Advogado Sócio-Fundador Lopes & Castelo Sociedade de Advogados

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