Quarta-feira, 17 de junho, dois bancos centrais decidiram o rumo do dinheiro em seus países e a distância entre as duas decisões diz mais sobre a economia brasileira do que qualquer discurso.
Em Brasília, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,50% para 14,25% ao ano, no terceiro corte consecutivo do ciclo iniciado em março. Em Washington, no mesmo dia, o Federal Reserve manteve os juros americanos na faixa de 3,5% a 3,75%, em sua primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh.
Ponto um instante sobre esses números. Enquanto a maior economia do planeta opera com juros abaixo de 4%, o empresário brasileiro convive com uma taxa básica de 14,25%, praticamente quatro vezes maior. E quando se desconta a inflação projetada, a constatação é ainda mais dura, pois mesmo depois de três cortes seguidos, o Brasil terminou o dia com a maior taxa real de juros do mundo, segundo o monitoramento das consultorias MoneYou e Lev Intelligence.
Isso, definitivamente, não é uma posição de prestígio, mas sim, um grande sinal de alerta.
O que 0,25 ponto realmente representa
A direção é correta e merece ser reconhecida, depois de manter a Selic em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas, entre junho de 2025 e março deste ano, o Banco Central começou a afrouxar e, em três reuniões, os juros recuaram 0,75 ponto, o que pode ser visto como um alívio.
Mas é um alívio homeopático para uma economia que precisa de tratamento intensivo. Cortar 0,25 ponto quando a taxa está em 14,25% equivale a aliviar uma febre de 40 graus baixando-a para 39,75. O paciente continua acamado. Para quem produz, contrata, investe e empreende no Brasil real, a diferença entre 14,50% e 14,25% é quase imperceptível na ponta do caixa. O custo do dinheiro continua proibitivo e desafiador.
A conta que o juro alto cobra das empresas
Juros elevados não são uma abstração de economista, eles aparecem, todos os dias, na vida concreta de quem toca um negócio e aparecem de formas que se acumulam:
Capital de giro caro. A empresa que precisa financiar estoque, folha e prazo de recebimento paga, sobre cada real tomado, uma taxa que corrói a margem antes mesmo de o produto chegar à prateleira. O juro alto transforma o capital de giro, que deveria ser oxigênio, em sufoco.
Investimento paralisado. Nenhum projeto sobrevive a uma matemática perversa. Por que um empresário arriscaria capital na expansão de uma fábrica, na compra de um equipamento ou na contratação de uma equipe, com todo o risco que isso envolve, se pode aplicar o mesmo dinheiro em um título público e receber mais de 14% ao ano sem trabalho e sem risco? O juro alto não apenas encarece o investimento produtivo, ele o torna economicamente irracional. A poupança vence a coragem e uma economia em que aplicar é mais rentável que produzir, é uma economia que estagna.
Crédito e endividamento. Com dinheiro caro, o crédito encarece para todos, para o consumidor que compra parcelado, para a empresa que rola dívida e para o tomador de financiamento imobiliário. O consumo perde força, as vendas caem, e o caixa que já estava apertado aperta mais. Não por coincidência, períodos de juros altos prolongados são também períodos de aumento da inadimplência e de recuperações judiciais. Muitas empresas saudáveis em sua operação quebram não por má gestão, mas por asfixia financeira, esmagadas pelo custo de uma dívida que se tornou impagável.
O Estado disputando o seu dinheiro. Há ainda um efeito silencioso e cruel. Quando o governo paga mais de 14% para se financiar, ele suga a poupança do país inteiro para dentro do Tesouro. O capital que poderia irrigar o setor produtivo é drenado para o serviço da dívida pública. O empresário, na prática, compete por crédito com o próprio Estado e claro, na maioria das vezes, perde.
O que deixamos de construir
Talvez o efeito mais grave do juro alto seja aquele que não aparece em nenhuma planilha, que é aquele que deixa de existir. As fábricas que não foram ampliadas. Os empregos que não foram criados. As empresas que não nasceram porque o financiamento inicial era inviável. Os negócios que não foram adquiridos, não foram modernizados, não foram passados adiante.
Cada ponto percentual mantido acima do necessário é um pedaço de futuro que a economia brasileira renuncia. E essa renúncia se compõe, ano após ano, no que os economistas chamam de produto potencial não realizado e que o empresário chama, simplesmente, de sonho adiado.
Por que defendo cortes mais profundos
Não se trata de irresponsabilidade fiscal nem de ignorar a inflação. Trata-se de proporção. O Brasil ostenta a maior taxa real de juros do planeta enquanto sua economia desacelera e seu setor produtivo pede socorro. Há espaço e há necessidade de uma política monetária mais ousada, que devolva ao empresário a previsibilidade e o custo de capital compatíveis com um país que quer crescer.
Cortes graduais de 0,25 ponto sinalizam cautela, e a cautela tem seu valor. Mas cautela em excesso, diante de um juro real que não tem paralelo no mundo, deixa de ser prudência e passa a ser um freio permanente sobre quem gera riqueza e emprego.
Porque o argumento precisa ser honesto
É justo reconhecer o dilema do Banco Central. As projeções de inflação se deterioraram e a pesquisa Focus aponta 5,3% para 2026, acima do teto da meta, e as expectativas seguem desancoradas, pressionadas pelos choques de petróleo e alimentos decorrentes do conflito no Oriente Médio. Cortar juros com mais agressividade nesse cenário traz riscos reais de perder o controle dos preços e inflação alta também destrói empresas, talvez de forma ainda mais traiçoeira.
O ponto, porém, não é abandonar o combate à inflação. É reconhecer que manter o juro real mais alto do mundo por tempo prolongado tem um custo igualmente devastador, ainda que mais silencioso. Existe um equilíbrio a ser buscado e ele está, hoje, longe demais do lado do aperto.
A lição para o empresário
Enquanto o debate sobre a Selic se desenrola em Brasília, há uma verdade que nenhum corte de juros vai resolver no lugar de quem empreende, a empresa que depende de juro baixo para sobreviver já nasceu frágil.
A taxa de juros é uma variável que não controlamos. O que controlamos é a estrutura do nosso negócio, sua organização financeira, sua eficiência tributária, seu nível de endividamento, sua capacidade de gerar caixa próprio e de resistir a ciclos adversos.
As empresas que atravessam períodos de juro alto sem se quebrar não são as que tiveram sorte, são as que se prepararam, que blindaram o patrimônio, planejaram a sucessão, organizaram a casa e construíram valor real, em vez de improvisar a cada crise.
Que este novo ciclo de cortes seja o primeiro de muitos, e mais profundos. Mas, sobretudo, que ele encontre empresas preparadas para crescer quando o dinheiro, enfim, voltar a custar o que deveria custar. Porque os juros sobem e descem e quem construiu uma empresa sólida estará pronto nos dois movimentos.

Por Luis Castelo
Advogado Sócio-Fundador Lopes & Castelo Sociedade de Advogados





