O novo cenário das transações empresariais no Brasil
O ambiente empresarial brasileiro vive um momento de profunda transformação. Nos últimos anos, as operações de fusões e aquisições (M&A) deixaram de ser uma exclusividade de grandes conglomerados e passaram a fazer parte da estratégia de pequenas e médias empresas, especialmente em setores industriais, de tecnologia, energia, agronegócio e serviços.
O que antes parecia distante, hoje é uma realidade, isto porque pequenas e médias empresas estão sendo compradas, vendidas, incorporadas e reestruturadas para atrair novos sócios, fundos de investimento e players de mercados estratégicos. Esse movimento não é apenas financeiro, ele reflete uma maturidade de mercado, por meio da qual, empresas que desejam crescer precisam estar abertas a parcerias, e empresários que desejam perpetuar seus negócios precisam enxergar a venda como uma etapa natural da evolução.
Mas a grande verdade é que, na maioria dos casos, as empresas não estão preparadas para esse tipo de operação, falta governança, controle, planejamento tributário, segurança jurídica, estrutura societária adequada e, sobretudo, visão estratégica de negócio.
Vender é um processo e não um evento, por isso a preparação é uma etapa importante de todo esse processo.
Diferente do que muitos imaginam, vender uma empresa não é apertar a mão de um comprador e assinar um contrato. Uma operação de M&A é um processo complexo, que envolve etapas sucessivas de diagnóstico, valuation, auditoria, negociação e formalização jurídica.
Um ponto de antecede a venda de uma empresa, é o preparo prévio, uma etapa tão importante, mas que infelizmente, muitos empresários a desprezam, não porque não se preocupam, mas porque quando a proposta aparece, não tiveram tempo hábil para realizar esta etapa.
Um empresário que decide vender sua empresa sem planejamento, age como quem coloca um imóvel no mercado sem reformá-lo, sem documentação e sem saber seu valor real. O resultado é previsível nestes casos, e compreendem na perda de valor, atrasos e desistências.
A preparação adequada pode elevar o valor de uma empresa em até 30%, segundo estudos de consultorias internacionais. Isso ocorre porque um negócio bem estruturado reduz riscos para o comprador, transmite confiança e facilita o processo de due diligence.
Os pilares de uma empresa pronta para M&A
Empresas atrativas aos olhos do mercado têm características em comum e gosto de destacar os destaco cinco pilares que sustentam a “atratividade” empresarial:
Estrutura societária clara e regularizada
Um dos primeiros pontos analisados por qualquer investidor é a estrutura societária. Empresas com quadro societário confuso, quotas mal distribuídas, contratos desatualizados ou com sócios em conflito representam risco.
Diante disso, é essencial revisar:
- Contrato social e eventuais alterações;
- Acordos de sócios;
- Participações cruzadas entre empresas do grupo;
- Direitos e deveres de cada sócio;
- Existência de poderes e representações (procuradores, administradores, diretores).
Uma estrutura societária coerente e transparente é a base para qualquer operação de compra e venda.
Governança corporativa e compliance
Investidores compram organizações, não pessoas, por isso, é fundamental que a gestão não dependa exclusivamente do fundador. Empresas com governança corporativa sólida demonstram continuidade, previsibilidade e segurança.
Ter políticas internas, controles financeiros, organogramas funcionais e auditorias regulares transmite profissionalismo e reduz o risco de contingências.
O compliance também é decisivo, isto porque processos judiciais, autuações fiscais, passivos trabalhistas e falta de controles de integridade podem afastar potenciais investidores ou reduzir drasticamente o valuation.
Eficiência tributária e contábil
Um dos pontos mais sensíveis em M&A é o passivo tributário. Mesmo que a empresa seja lucrativa, dívidas ocultas com o fisco, regimes inadequados de tributação ou falhas em obrigações acessórias podem inviabilizar uma transação.
A recomendação que damos a todos os empresários, é realizar uma auditoria tributária prévia (uma espécie de pré-due diligence) para:
- Revisar apurações dos últimos 5 anos;
- Identificar créditos tributários não aproveitados;
- Regularizar pendências e parcelamentos;
- Corrigir inconsistências contábeis e fiscais;
- Estruturar o melhor regime tributário conforme o modelo de operação;
- Identificar eventuais contingências que poderiam ocasionar a redução do valuation.
Além de prevenir riscos, essa etapa pode gerar valor, uma vez que créditos recuperáveis e regimes otimizados aumentam o resultado operacional e o preço de venda.
Performance financeira e indicadores
Investidores compram resultados futuros, mas se baseiam em números passados e previsões realistas. Uma contabilidade desorganizada, sem demonstrações financeiras confiáveis ou indicadores claros, compromete toda a negociação.
É preciso apresentar:
- DREs ajustadas (EBITDA normalizado);
- Fluxo de caixa projetado;
- Histórico de faturamento e margens;
- Composição de custos e despesas;
- Clientes e contratos relevantes.
É muito importante frisar que, a ausência de transparência ou divergência entre contabilidade e realidade operacional é um dos principais motivos de desistência em processos de due diligence, o que acaba trazendo um sentimento de frustração.
Estratégia, cultura e diferencial competitivo
Além dos números, muitos investidores buscam histórias e potenciais. Empresas que possuem propósito claro, diferenciais competitivos e cultura organizacional sólida tornam-se muito mais valiosas. Um negócio com posicionamento estratégico, pipeline de clientes diversificado e planos de expansão bem definidos mostra que há espaço para crescimento e oportunidades, e é exatamente isso que um comprador procura em uma empresa.
O papel do vendedor consiste, inicialmente em preparar-se emocional e estrategicamente
Vender uma empresa é um processo que também exige preparo emocional. Muitos empresários constroem seu negócio ao longo de décadas e sentem dificuldade em separar o “eu” da empresa. Mas em uma negociação de M&A, o desapego e a racionalidade são fundamentais.
Neste contexto, gosto sempre de expor alguns comportamentos que geralmente comprometem a venda:
- Avaliar o negócio com base em expectativa emocional e não técnica;
- Negar-se a abrir informações essenciais ao comprador;
- Tentar esconder problemas operacionais;
- Desconsiderar o papel de consultores especializados.
Por outro lado, o empresário que se prepara, se assessora e entende o processo conquista melhores condições de negociação.
As etapas essenciais da jornada do M&A
Agora, penso que é muito importante compartilhar com todos vocês que estão lendo este artigo, as etapas que julgo serem essenciais dentro da jornada do M&A.
Para compreender a complexidade e a importância do planejamento, é essencial conhecer as etapas que compõem esse tipo de operação e, de forma resumida, podemos dividi-la em seis fases principais:
Diagnóstico e preparação
Etapa inicial de fato, muitas vezes ocorre quando ainda não há nada concreto sobre uma possível venda, mas sim quando o empresário sinaliza o interesse em vender. Este é um momento preparatório importante, pois é a partir deste diagnóstico que se estrutura as etapas de preparação que, basicamente estão compreendidas em:
- Avaliação jurídica, contábil e tributária;
- Identificação de riscos e oportunidades;
- Definição de ajustes estruturais;
- Preparação de documentos e relatórios;
- Regularização de pendências.
Valuation e modelagem
Mais do que calcular números, o valuation traduz o potencial da empresa em valor econômico real. A modelagem, por sua vez, define a forma e a estrutura da transação, equilibrando expectativas de preço, formato societário e segurança para ambas as partes.
É aqui que o projeto de M&A deixa de ser uma ideia e se transforma em um plano concreto, técnico e viável, consistindo basicamente em:
- Definição do método de avaliação;
- Normalização do EBITDA;
- Estudo de cenários e projeções futuras;
- Estruturação de modelo de venda (total, parcial, incorporação, cisão, joint venture).
Estratégia de venda e confidencialidade
Com a empresa ajustada e avaliada, chega o momento de definir a estratégia de abordagem ao mercado. É elaborada uma apresentação sigilosa e são selecionados potenciais compradores e firmado o acordo de confidencialidade (NDA), garantindo segurança às negociações iniciais.
Due Diligence
Trata-se da auditoria completa da empresa, onde compradores analisam contratos, balanços, passivos e aspectos legais. É uma etapa decisiva, pois confirma a veracidade das informações e pode ajustar o preço ou as condições da operação e, basicamente consiste em:
- Auditoria detalhada da empresa;
- Revisão de contratos, ativos, passivos, licenças, marcas, patentes, balanços e processos;
- Elaboração de relatórios e ajustes antes da conclusão.
Negociação e contrato
Com as informações validadas, inicia-se a negociação dos termos econômicos e jurídicos. São definidos valores, prazos, garantias e cláusulas essenciais, formalizados no contrato de compra e venda de quotas ou ações (SPA), inserção de cláusulas de não concorrência, permanência de executivos, planos de transição, earn-out, garantias e indenizações. Cada detalhe aqui impacta diretamente o sucesso da transação e deve ser muito bem gerido para evitar que a negociação fracasse.
Pós-fechamento e integração
Após a assinatura do contrato, começam os verdadeiros desafios, que são integrar equipes, processos e culturas. Essa fase garante a continuidade do negócio e a captura efetiva dos resultados esperados, consolidando o valor construído ao longo de todo o processo. Em suma, ocorre a implementação da nova estrutura societária, a integração de equipes, processos e culturas e o monitoramento de indicadores de performance.
O papel da assessoria jurídica e estratégica
Nenhum empresário deve conduzir sozinho uma operação de M&A, isto porque, como já dito, é um processo complexo, exaustivo e que pode durar um longo período. Dito isso, a presença de assessores jurídicos, tributários e financeiros especializados é determinante para o sucesso da transação.
Uma assessoria bem estruturada atua como um PMO (Project Management Office), centralizando o fluxo de informações entre as partes, controlando prazos, evitando ruídos e garantindo a segurança jurídica de cada etapa.
Para que se possa ter uma ideia da importância de uma assessoria especializada, os principais diferenciais de uma assessoria robusta são:
- Visão multidisciplinar (societária, tributária, trabalhista, contratual e financeira);
- Capacidade de antecipar riscos e propor soluções;
- Apoio na negociação de termos econômicos;
- Elaboração de documentos claros e equilibrados;
- Proteção patrimonial dos sócios.
Em suma, uma assessoria de alto nível não apenas reduz riscos, mas também aumenta o valor percebido da empresa aos olhos de investidores.
A importância da adequação prévia: o “pré-M&A”
Aqui um ponto que, em minha opinião, é crucial e fundamental para qualquer empresário que tenha a intenção de vender sua empresa. Digo isso, pois a maioria dos negócios que fracassam no meio do caminho, ocorrem por situações que poderiam ter sido evitadas, contingenciadas e muitas vezes, resolvidas sem comprometer a continuidade das negociações.
Antes de lançar a empresa ao mercado, é indispensável um processo interno de adequação e saneamento. Essa fase, conhecida como pré-M&A, é um dos grandes diferenciais entre uma venda bem-sucedida e uma negociação frustrada.
Entre as ações recomendadas estão:
- Revisão jurídica e societária completa;
- Auditoria tributária e contábil;
- Regularização de contratos e títulos de propriedade;
- Consolidação de documentos financeiros;
- Padronização de relatórios gerenciais;
- Treinamento de gestores para reuniões com investidores;
- Implementação de boas práticas de governança.
Esse trabalho pode durar meses, mas transforma a empresa em um ativo pronto para o mercado, valorizando-a substancialmente.
As principais razões de fracasso nas operações de M&A
Apesar do enorme potencial, cerca de 60% das operações de M&A no Brasil não chegam à conclusão ou geram resultados abaixo do esperado.
Muitas podem ser as causas desse fracasso, mas gosto de relatar àquelas que são as mais comuns:
- Falta de preparação prévia;
- Valuation superestimado;
- Falhas na due diligence;
- Desorganização contábil;
- Passivos ocultos;
- Divergência cultural entre as partes;
- Falta de plano de integração pós-fechamento.
Por isso, o sucesso de uma transação depende menos da oportunidade e mais da gestão do processo, isto porque, uma empresa bem estruturada, preparada corretamente e com números atrativos, possuem grande assertividade e conclusão nos processos de venda.
Preparar é valorizar
Empresas não são vendidas, são conquistadas pelos investidores e, para ser conquistada, uma empresa precisa ser sólida, organizada e transparente. O empresário que se antecipa e investe na preparação prévia está, na verdade, construindo valor, pois está ao mesmo tempo profissionalizando sua gestão, ajustando sua estrutura e garantindo liquidez futura com segurança.
Conduzir uma operação de M&A é muito mais do que negociar números, é construir uma narrativa de valor, é alinhar estratégia, governança, performance e propósito em torno de um objetivo, que é fazer com que a empresa se torne desejada, e não apenas disponível.
Ao longo dos últimos anos, tenho acompanhado de perto dezenas de empresários e grupos empresariais em projetos de reestruturação, compra e venda de empresas, valuation e governança corporativa, cada operação é única, mas todas compartilham um mesmo princípio, de que o sucesso nasce da preparação.
Empresas que se antecipam, organizam sua estrutura societária, saneiam seus passivos, aprimoram seus controles e constroem indicadores confiáveis não apenas valem mais, como também atraem investidores melhores e negociações mais sólidas.
Ao conduzir processos dessa natureza, tenho como propósito unir visão jurídica, tributária e estratégica para entregar projetos de M&A que vão muito além da transação, mas projetos de reposicionamento empresarial e geração de valor real.
Cada etapa é tratada com precisão técnica, confidencialidade e foco em resultado, porque acreditamos que vender uma empresa é uma das decisões mais importantes da vida de um empreendedor, e por isso, deve ser feita com excelência e segurança.

Por Luis Castelo
Advogado Sócio-Fundador Lopes & Castelo Sociedade de Advogados





